Ainda falam da proibição da camisinha
Joildo Candido da Silva¹
Há palavras ou frases que servem tipicamente para exprimir um sentimento. Encontro-me, frequentemente, com pessoas sedentas de diálogo, elas manifestam suas opiniões sobre a realidade em que vivem. Falam-me de suas aspirações, sonhos, dificuldades, conflitos, motivações, inseguranças, assuntos ingênuos e polêmicos. Assim, quando penso que o momento é oportuno, lhes proponho uma reflexão direcionada a origem da idéia. Após uma palestra ministrada ao um grupo de jovens, fiquei surpreso com a deturpação de meu tema, ocasionada pela seguinte frase: “Seminarista, a Igreja prefere que os jovens, peguem AIDS e morram…” Observei penalizado, o sentimento de angústia que envolveu alguns naquele momento. Tentei, com palavras, amenizar o impacto momentâneo… Pareceu-me, que ficaram pensando! Em continuidade, veio ao meu pensamento à preocupação daquele rapaz. Pensei nas inúmeras meninas grávidas, no ato aniquilador da prostituição, nas crianças concebidas com o vírus HIV. Pessoas que posso encontrar no dia-a-dia, pessoas que buscam ajuda, consolo, respostas. Certamente, eu seria solidário de algum modo: por ação, reação ou, omissão. Acredito: a Igreja também. Dentro deste contexto, atrevo-me a escrever sobre o polêmico assunto da “proibição da camisinha”.
Todos podem constatar que a discussão sobre a “proibição da camisinha” implica em muitos equívocos. A religião propõe uma visão fundamentada nos valores éticos e morais, por outro lado, a ciência apresenta dados assustadores, afirma ser uma questão de saúde pública. No entanto, o que observo, em princípio, é que o assunto ficou complexo e confuso. Não há diálogo, cooperação, envolvimento, compreensão. A ideia assemelha-se a uma competitividade, ambas detém sua verdade, anular qualquer hipótese de reorientação é a única regra. Então, como sou Cristão Católico, fico contra a camisinha? Eis a questão que embaça o problema da consciência sexual, pois, no nosso tempo atual, pouco adianta as proibições ou os mandatos que, apenas, geram reações e contra-reações na sociedade.
Particularmente, sou a favor da vida, sou absolutamente favorável a vida sem antigas repressões neurotizantes, e por isso, acredito numa consciência sexual, que não anula a relação de compromisso e comunhão dos seres humanos. Da mesma forma que, acredito numa consciência sexual que é princípio de vida, de alegria, de prazer, de plenificação no ser humano. Ora, uma sexualidade sem amor e sem respeito, ainda é humana? Por conseguinte, não sou a favor de uma pseudo-consciência que, por causa da busca desenfreada pela realização de prazeres e satisfações individuais, transforma-se em instrumento de contaminação e morte. Somos testemunhas, da contaminação do meio ambiente (lixos tóxicos), da negligência com a biodiversidade, da destruição da camada de ozônio (gases poluentes). A contaminação química envenenou o ar que respiramos os alimentos que ingerimos e a água que bebemos. A vida natural está morrendo pela contaminação. Responsável? Todos! Causa maior: a omissão de uma sociedade que relativiza valores e negligencia os próprios recursos naturais. Analogicamente, a consciência sexual, na contemporaneidade, também está contaminada, não há uma sexualidade saudável, que corresponde ao amor, ao carinho, a ternura, consideração e respeito à dignidade da pessoa. Assim, permito-me parafrasear João Paulo II: “O uso da camisinha convida a um comportamento sexual incompatível com a dignidade humana…” A camisinha é uma expressão a mais, da inconsciência, do egocentrismo e egoísmo de uma cultura ofuscada pelo relativismo. Não é a camisinha, consequência do medo ao contágio?
Dentro deste contexto, um paradoxo em questão é a preocupação com o fazer “sexo seguro”. A mídia anuncia – direta ou indiretamente – a “liberdade sexual”, que está intimamente relacionada à origem do HIV. Assim, quando se põe a questão da AIDS com a sociedade, a mídia atribui uma parcela de responsabilidade à Igreja, acusando a Igreja de ter valores ultrapassados e, de ser contra a camisinha. No entanto, ela não menciona que uma boa porcentagem, cerca de 25% das pessoas aidéticas deste país, são cuidadas por homens e mulheres da Igreja. Outro dado importante, a Igreja sempre pregou a castidade, o amor e a fidelidade no matrimônio. Mas, quem a escutou? Portanto, para mim fica evidente que não é a Igreja, quem tem responsabilidade sobre essa pseudo-consciência, mas sim essa modernidade, instigada por essa busca desordenada da realização sexual que a mídia transmite.
Diante disso, lembro-me das aulas de antropologia filosófica e, de um determinado conceito que caracteriza a natureza humana: “o homem é por definição consciência”. Logo, é está consciência que nos torna humanos, nos capacita à sociabilidade, nos impulsiona a liberdade. Recordo ainda, uma frase de Rousseau² “Liberdade é obediência as leis que a pessoa estabeleceu para si própria”. Então, penso que, a liberdade não é absoluta. Primeiro, sabemos que não há liberdade isenta de responsabilidade. A liberdade, ainda na visão ontológica, também é uma característica do ser humano, ela distingue os seres humanos dos seres irracionais, ou seja, ela é a possibilidade do agir em consciência. Depois, é necessário salientar que, ela está subordinada a dimensões culturais que mediam as ações humanas, baseando-se fundamentos da moral. Resumidamente, é preciso observar as “normas”, os princípios éticos que visam o bem supremo e comum a todos.
² Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) foi um filosofo iluminista, escritor, teórico político, precursor do Romantismo.
Por fim, depois de ter me deleitado em minha experiência, concluo que se faz necessário uma profunda reorientação, diante deste intrigante assunto. É possível que minha tentativa de direcionar aqueles jovens a uma reflexão não tenha sido suficientemente convencível, no entanto, acredito que no momento oportuno, minhas palavras frutificarão. Como diz Sartre, filosofo contemporâneo que como poucos souberam entender a existência do individuo: “As boas ações elevam o espírito e predispõem-no a praticar outras”. (Jean-Paul Sartre)
¹É seminarista da Arquidiocese de Uberaba MG, estudante do curso de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia MG.
E-mail para contato: joinho-filosofia@hotmail.com

Com relação a camisinha vejo que é um mal necessário.