Sexualidade e o Celibato
Desde quando era adolescente, presenciava diálogos a respeito da sexualidade e do celibato religioso. Escrever algo sobre questões complexas parece-me um desafio. Semelhante aos bons tempos de minha adolescência, diálogos conflitantes tentam estabelecer, em nosso momento atual, conceitos convencionados pela mídia, que ofuscam e limitam a beleza da sexualidade e do celibato. A ideia é como se celibato e sexualidade, tivessem tornado-se inimigos íntimos. Mas, a realidade é bem diferente! Não é meu propósito refutar teorias a respeito deste assunto. Eu sei que não possuo a verdade absoluta, e todas as vezes que tento aprisioná-la aos meus conceitos, ela foge de mim, com a transgressão do próprio conceito. Assim, me permito escrever este pequeno ensaio, acerca dos meus conhecimentos sobre a intrigante questão da sexualidade e celibato.
A sexualidade é vivência central na vida das pessoas. Infelizmente, nem sempre acontece como dimensão realizadora do ser humano. A cultura hedonista está enraizada no seio das famílias, nos jovens e, consequentemente, relativizando valores éticos e morais. Por muitas vezes, a desordem da sexualidade é motivo e causa de sofrimentos, até de destruição humana! A falta de fidelidade matrimonial, a deseducação sexual, as diferentes formas de consciência a respeito da liberdade, a cultura erótico-visual, etc: São alguns dos motivos que levam a humanidade ao sofrimento e constante angústia por não entender bem a ordem da sexualidade. Compreender a sexualidade leva-me, a tentar direcioná-la em algumas coordenadas: biologia, história, o personalismo e, sobretudo, na Palavra de Jesus. Seguindo estas orientações, desejo situar melhor aquilo que pode e deve ser a realização sexual de todos, como motivo de felicidade e de plenitude humana.
Segundo a biologia, o ser humano é constitutivamente sexuado e vive sua sexualidade semelhante a uma pulsão. Como qualquer organismo vivo, temos duas pulsões básicas: o ato da alimentação, que corresponde diretamente à sobrevivência do homem; e, também, o ato sexual que representa a sobrevivência da espécie humana. Em outras palavras, estas duas dimensões são fundamentais para os seres humanos na manutenção da vida. Por conseguinte, a ordenação da expressão destas duas pulsões, sem dúvida, é mediada pelas culturas nas quais os indivíduos estão inseridos, e dentro de cada cultura, certamente, intervém a dimensão religiosa como é nosso caso. Por outro lado, a estrutura psíquica de cada um, vai dar medida e forma tanto à alimentação como quanto à sexualidade. Portanto, a sexualidade nesse pequeno ensaio, não é algo a ser compreendido independentemente da pulsão alimentar. Pois, as duas pulsões se interpenetram mutuamente.
Nossa historicidade nos conduz há relatos que não podemos nos esquecer. Nos anos sessenta, o fato da explosão sexual que culminou com a teoria do “amor livre” tomando conta daquela geração, assim, como a repressão sexual da época, levou as pessoas a condutas duplas e hipócritas. A sexualidade passou a ser compreendida, apenas, como prática sexual genital. De fato, não estamos também condicionados a entender ou, até mesmo viver a sexualidade como sinônimo de genitalidade? Com isso, a visão sexual de nossa sociedade é relativamente herdeira dessa explosão e repressão sexual. O povo, reprimido sexualmente, não foi feliz. De modo que essa “liberdade” sexual, a prática do sexo livre, abandonou muitas pessoas a miséria de sua própria solidão. Porque o sexo “livre” anula qualquer relação de compromisso e de comunhão, elementos necessários para o crescimento e amadurecimento pessoal do ser humano.
O desejo de realização, a felicidade que o homem sempre almejou encontrar com a prática desordenada do sexo, não lhes proporcionou seu equilíbrio natural, sua felicidade plenificante. Por enquanto, o que temos é a vivência frustrante da repressão ou a expressão aniquiladora da libertinagem. Assim, a liberdade e o domínio da expressão sexual ainda estão por estrear a realização e plenificação do homem.
Uma característica da liberdade é o autodomínio na expressão do ser humano. Em sua dimensão sexual é aquilo que o constitui como tal, certamente, não é, nem a repressão nem libertinagem. São os fatos que falam: nem a repressão sexual nem o sexo “livre” deixaram o ser humano mais feliz. E então? Na praticidade, muitos adolescentes, jovens não estão preocupados com essa linha de pensamento. O que interessa mesmo é saber se podem, ou não podem? Essa ideia de “pode e não pode” sempre me deixa uma impressão de moralismo… Se é preciso digo pelo pensamento de São Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (ICor. 6,12). Logo, o discernimento de consciência de cada um é insubstituível.
Ao iniciar este ensaio, mencionei que a palavra de Jesus iluminará nossa reflexão diante de tão íngreme assunto. Ele mesmo nos indicará o caminho para sair dessa complexidade, é a partir Dele que pretendo esclarecer o sentido da sexualidade e sua feliz expressão no relacionamento humano.
Nos textos Bíblicos, Jesus não falou muito destas questões. Em alguns momentos fez referência ao adultério, que dentro da tradição do Antigo Testamento, é um pecado, porque se opõe ao plano de Deus, que Jesus cita textualmente: “ Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a uma mulher, e os dois serão um só carne.” (Gênesis 2:24). Este plano de Deus, na palavra de Jesus, torna-se um sinal sensível e eficaz. Isto é, presença da felicidade plenificante da expressão do amor no relacionamento humano. E, isto, apesar da prática divorcista aprovada na lei mosaica, que objetivava proteger os direitos dos divorciados, por causa do adultério, especialmente o direito das mulheres (Deuteronômio 14, 1-14). Contudo, Jesus é esclarecedor no Evangelho de Mateus 19:8 – Ele mostra que essa aprovação da lei mosaica, é devido à dureza dos corações.
Ainda encontramos outra palavra de Jesus geradora de conflitos: “ Ouvistes o que foi dito: “Não cometerás adultério… todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério em seu coração.” Trata-se de um fragmento do capitulo 5 do Evangelho de Mateus. Esta palavra é conflitante porque pode parecer que Jesus estar ignorando a pulsão sexual constitutiva do ser humano. Mas, a palavra de Jesus contextualizada, se refere a perfeição do relacionamento humano, portanto, a palavra sobre a sexualidade significa dizer: não reduzirás a pessoa ao objeto de teu desejo sexual, manipulando-o de acordo com suas necessidades, fantasias e neuroses. De fato, quando isso acontece, ver as pessoas com olhar libidinoso, o que fazemos se não aniquilar o outro em sua dignidade e identidade pessoal? E me parece que isto, é que é o pecado: o fato de ser destrutivo do relacionamento e crescimento humano. Mas essa discussão fica para outra ocasião.
Há outra Palavra de Jesus que, causa escândalo na contemporaneidade. Jesus fala de “castração” pelo Reino de Deus, referindo-se a realização da sexualidade no celibato. A adesão ao celibato tornar-se significante quando compreendido pelo Reino de Deus. E, ele, por si só possui algum significado?
A proposta do celibato somente é dada a quem se atrever correr o risco de realizar a descoberta da vida na liberdade responsável para o Amor. Jesus, Ele mesmo, foi celibatário, nem por isso tornou-se anjo, senão um homem, e como tal, sexuado. Ele, certamente, realizado na vivência celibatária da sexualidade e realizando a plenitude do Reino dos céus em sua vida humana, nos mostrou que é possível a realização pessoal dentro da vivência do celibato. O próprio Freud não rejeita a hipótese de “sublimação” para explicar a transcendência. Para os que se decidem livremente pelo celibato, é evidente que o “Reino dos Céus” é à força dessa sublimação da sexualidade pessoal.
Diante disso, penso que há uma verdade: quem critica o celibato, apesar das imperfeições que possa haver (como no matrimônio), está criticando o próprio Jesus e a sua vivência evangélica. Fato que não é novidade, porque segundo os Evangelhos: os “inimigos” de Jesus não fazem outra coisa a não ser criticar.
Portanto, mediante observações que nos causam polêmicas, mas que, faz necessário falar, concluímos que somos seres sexuados e a sexualidade humana invade todos os relacionamentos da humanidade. Se ordenada, a sexualidade, essa formidável força da vida, é fonte de alegria, união, de felicidade, de sacralidade e até mesmo de consagração para a vida.
Autor do artigo: Joildo Cândido da Silva – Seminarista da Arquidiocese de Uberaba MG e estudante do curso de filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia MG.
E-mail para contato: joinho-filosofia@hotmail.com

Interessante perceber que alguém consegue abordar um assunto tão complexo, com muita sabedoria. Seu texto é muito bom, mas, ainda expressa o que você vive realmente em sua vida. Parabêns meu caro.
Não sei na verdade se esse negócio de celibato é necessário. Ms, acrdito que seu escrito possibilita uma boa reflexão. Não nos é imposto nada apenas, propõem uma abertura maior na reflexão. Bom minha opinião pessoal não acredito no celibato.
Adorei seus escritos! sem dúvidas o que nos falta hj é de fato, coerência na vivencia celibatária. Abraços.